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Iate Clube de Paranaguá


Passados cinqüenta e um anos da sua fundação, o Iate Clube de Paranaguá é hoje, sem sombra de dúvidas, uma das melhores e mais importantes associações do gênero em todo o Brasil. Permitem-lhe tais situações, além da posição geográfica privilegiada, o amor e o trabalho dedicados ao seu progresso pelas comodorias que se sucederam ao longo dessas quatro décadas. Mais simples narrativa da evolução de uma sociedade náutica, a história do Iate é também um pedaço da evolução da própria história da cidade de Paranaguá.

A concretização de um ideal
Paranaguá, início da noite de 16 de dezembro de 1952. O comerciante Ivo Petry Maciel, com um livro de ata recém adquirido debaixo de braço, caminhada em direção ao centro da cidade. Seu destino é o Clube Republicano, onde deve ser finalmente decidida a fundação do Iate Clube de Paranaguá. Sem muita convicção – afinal já foram tantas e infrutíferas as tentativas – ele deixa que a inércia o guie. “Talvez haja possibilidade de encontrar alguém no veterano clube”, pensa durante a caminhada solitária. O alguém em questão são aos amigos com quem acertara o encontro, horas antes, para definir a parada. Ele atribui a possibilidade de encontrá-los ao respeito devido ao Capitão dos Portos, Zomar Pontes Ramos, incentivador da fundação do Iate Clube e que havia sugerido a reunião especificamente para esse fim. Mas qual não é a surpresa quando, por volta das 19h30m- meia hora antes do combinado, avisa o grupo já nas proximidades do Bazar Alberto Veiga. São aproximadamente trinta pessoas, número suficiente para a criação do Iate. Reunidos, esse homens dedicados à paixão comum pelas coisas do mar entram no Clube Republicano. Pouco tempo depois, ainda na mesma noite, é lavrada a ata de fundação. O sonho de Ivo Petry Maciel começava a se tornar realidade.
Essa informação consta no caderno aberto por Maciel especialmente para registrar o momento histórico da fundação do Iate Clube de Paranaguá e as circunstâncias que a antecederam. Ao final das anotações ele explica o porquê do cuidado em transpor para o papel o início da concretização do sonho que, quase solitário antes da fundação, passou a pertencer a muitos a partir dela: “ Talvez um dia estas lacônicas notas interessem a alguém ou sirvam para orientar. Dada falta absoluta de vocação para escrever, se o faço na expectativa de que outro não tome a iniciativa”. Mais uma vez Maciel estava certo. As “lacônicas notas” interessam sim. E interessam a todos aqueles que, como ele, sabem da necessidade de se conhecer o passado para valorizar o presente e planejar o futuro.

Tentativas Frustradas
“Várias tentativas que fiz para fundar o Iate Clube de Paranaguá fracassaram. Inúmeras vezes tentamos nos reunir no Clube Republicano, entretanto lá compareciam somente os senhores João Villa (o “Timoneiro”, que viria a ser tornar o primeiro comdoro), Walter Nascimento (o “Socó”, que se encarregaria de secretariar a reunião da fundação) e eu. Como é natural, com três pessoas não podia fundar um Iate Clube”, conta Maciel em seus manuscritos.
Outros esforços, porém, foram feitos bem longe do Clube Republicano, mais exatamente no meio da Baía de Paranaguá. Ficará para sempre marcada na história do Iate a Pescaria Oceano, organizada por Maciel em colaboração com João Villa e Alberto Cordeiro, o “Bengo”. O evento, realizado dezesseis dias antes da fundação do clube, funcionou como um trampolim para que ela acontecesse.
O grupo de pesca – cuidadosamente formado por elementos com quem se poderia contar para a fundação do Iate Clube – se compunha, além dos organizadores e eternos entusiastas da fundação, por Dorcio Lima, Dedete Veiga, Mauricio Carvalho, Jorge Abdala, Leonel Douglair, Lênio Arantes, Leôncio Barbosa, Victor Julião e Bartolomeu Villa, entre outros. No caminho de volta ao continente, o incansável Ivo Petry Maciel começou a falar da vantegens de ser ter um Iate Clube:“ Eu guardo o meu Schorpie no Valadares. O Senhor João Villa e Lênio levam seus barcos para casa, dependendo o Lênio da gentiliza do Senhor João para transportar o seu “Terezinha”. O Bengo guarda o seu “Maruja” não sei onde ”.
Mais ainda não foi dessa vez que a argumentação do presidente Maciel convenceria a todos. Exeto Bartolomeu Villa, os demais concordaram com Bengo, que via o Iate Clube como “uma instituição cara e de elite” e cuja idéia “dificilmente progrediria em Paranaguá”. Para ilustrar o que estava dizendo, Bengo citou o exemplo do Clube de Caça e Pesca que, apesar de ter sido fundado, “não havia dado em nada”. Indo mais além, defendeu a organização de um simples grupo de pesca.

Persistência Compensada
Apesar de nem mesmo o seu grupo de amigos estar convencido da viabilidade da idéia, a vontade de Maciel não sofreu qualquer abalo. E os eventos da boa sorte, por seu turno, começam a soprar espontaneamente. Se assim não foi, de que forma interpretar o seguinte episódio?
Alguns dias após a pescaria que em nada resultou para a fundação do Iate Clube, Conversavam Ivo Petry Maciel com o então funcionário da Capitania dos Portos do Paraná Jorge Luiz Guimarães de Barros, o “Feijão Cavalo”, quando este o informou do interesse do Capitão dos Portos em promover competições náuticas para comemorar a Semana da Marinha. Automaticamente, Maciel pediu a Barros, dada a sua proximidade do capitão, que intercedesse, pela realização de um páreo de motonáutica entre todos os que dispusessem de barcos, independente de qualquer limitação de motor ou modelo.
O Capitão dos Portos concordou com a idéia, a prova foi realizada e tudo saiu de acordo com os planos de Maciel, que no dia seguinte teve o que chamou de “ä felicíssima idéia”: reunindo o grupo, dirigiu-se até a Capitania “para agradecer ao Senhor Capitão a iniciativa da competição e solicitar, em caráter precário, sua permissão para construir um barracão para guardas os barcos”. O Capitão não aceitou os agradecimentos, justificando que a ele cabia agradecer aos participantes o interesse pela competição. Sobre a garagem, disse concordar com a proposta mas fez uma ressalva: não era possível ceder o terreno a um grupo de pessoas. Mas se existisse um clube, não teria dúvida em ceder parte de um terreno situado as margens do Rio Itiberê e próximo ao Clube de Natação e Regatas Comandante Santa Ritta.
Ouvindo isso, Walter Nascimento lembrou da existência do Clube de Caça e Pesca, fundado meses antes, ao que o Capitão respondeu com uma pilhéria: “Clube de Caça e Pesca dá a impressão de assassinato de pescados e outros animais”, disse. Foi então que o mesmo Bengo, opositor da fundação do Iate Clube, relatou a pretensão de Maciel em fundar um clube náutico. Prestando atenção a essas palavras, o Capitão afirmou de forma incisiva: “Se vocês ainda hoje conseguirem se reunir, fundar o Iate Clube de Paranaguá e ainda mandar-me um ofício, acrescido da ata de fundação, pedindo o terreno, eu não só cederei como tentarei ajudar vocês com numerário ou material para que seja imediatamente construída a garagem de barcos do Iate Clube”. O incentivador fez um breve relato aos presentes sobre a importância de um Iate Clube para as Forças Armadas e manifestou estranheza pelo fato de uma cidade como Paranaguá ainda não possuir um. Era o dia 16 de dezembro de 1952.
Terminada a audiência com o Capitão dos Portos, o grupo dirigiu-se a loja de Petry Maciel. Lá marcou-se reunião decisiva: às 20 horas no Clube Republicano. A viabilização do grande sonho estava tão próxima que nem mesmo o idealizador poderia acreditar que fosse real. Calejado pela oposição sistemática que sempre enfrentou, duvidou até o último minuto. Mas dessa vez era verdade. A preocupação, a partir daí, não era ter um Iate Clube e sim conseguir a madeira necessária para a construção da primeira garagem.Nada mais poderia ser tão difícil quanto a remover a resistência daqueles que se tornariam, por incrível que pareça, fundadores do Iate Clube de Paranaguá.

Tempos heróicos
Concluída a etapa de fundação do Iate clube de Paranaguá – e ainda na mesma noite – passou à escolha daqueles que comporiam a primeira diretoria, Para primeiro comodoro foi escolhido João Batista Villa, o “Timoneiro”. Ao lado de Ivo Petry Maciel e Walter Nascimento, Villa foi um dos grandes entusiastas da criação do clube. Para a Vice-Comodoria foi designado Joaquim Baddini.
Walter Nascimento, o “Socó”, ficou com a 1ª Secretaria. Ivo Petry Maciel assumiu a 1ª Tesouraria. A diretoria de esportes ficou a cargo de “Feijão Cavalo”, Jorge Luiz Guimarães de Barros. E Alberto Cordeiro, o “Bengo”, que antes preferia ter um Clube de Pesca, reponsabilizou-se pela Diretoria da Pesca.

Primeira Sede
A tão sonhada garagem para berços de Maciel ficou pronta no segundo semestre de 1953, pouco depois do lançamento da pedra fundamental do clube, no dia 29 de julho do mesmo ano.
Segundo Jorge Barros, fundador e posteriormente comodoro de Iate, apesar de todo o incentivo prestado à fundação do clube pelo o capitão dos portos Zomar Ponte Ramos muito do início da obra se deve ao administrador dos Portos de Paranaguá Joaquim Gonçalves. “Foi ele que doou o terreno e mandou construir a primeira sede no mesmo local onde funciona hoje o clube”, afirma Barros.
“Era um prédio de madeira dividido em dois pavimentos. A cobertura, muito bonita, foi feita em estilo normando. Da parte da terra, noventa por cento da área era destinada à garagem de barcos. O restante cabia administração. A parte superior, conforme a idéia inicial, deveria se prestar para oferecer acomodações para o associado de fora. Isso, porém, nunca aconteceu”, continua Barros.
A área coberta destinada à garagem media 230 metros quadrados e estava apta para receber entre 35 e 40 barcos, dependendo de suas dimensões. De acordo com o fundador e terceiro comodoro eleito, Calim Paulo, quando da sua fundação do Iate Clube de Paranaguá possuía entre cinqüenta e sessenta sócios. Desse total, menos de vinte possuíam barcos.
Seis anos após ter entrado em operação, no entanto, a mesma garagem já era extremamente pequena para atender as necessidades dos associados. “Meus senhores, como deveis observar a nossa garagem já é pequena para comportar dos afeiçoados deste novel esporte, isto devido à falta premente de terreno para o se (do Iate Clube)” desenvolvimento obrigatório”, discursava o próprio Paulo, na qualidade de comodoro, na solenidade de instalação da Flotilha de Snips nº 480, em 13 de dezembro de 1959. 

Carregando Pedras
Se para os seus primeiros anos de existência foi fundamental ao Iate clube de Paranaguá a colaboração prestada PELA Capitania dos Portos e pelo Porto, não menos importante foi o empenho pessoal dos sócios fundadores. “Para abrir a rua que dá acesso ao clube, eu, junto co o Costinha ( Constantino João Kotzias, o quinto comodoro eleito), o Bengo Cordeiro e outros mais tivemos que pegar na picareta”, garante Calim Paulo.
Jorge Barros confirma a informação e acrescenta: “Nós carregamos muita pedras, sim, para ver o nosso Iate de pé. Mas além do serviço também demos dinheiro do nosso bolso para que a obra fosse terminada. Foi um esforço conjunto e em todos os níveis, mais que valeu muito a pena”.


Primeira Diretoria do Iate Clube de Paranaguá ( 1953 – 1954 )
Comodoro: João Batista Villa
Vice-comodoro: Joaquim Baddini
1º secretário: Walter Nascimento
2º secretário: Waldir Chyla
1º tesoureiro: Ivo Petry Maciel
2º tesoureiro: Dorciro Lima
Dir. Esportes: Jorge Luiz Guimarães de Barros
Dir. Sede: Algacyr Moraes 
Dir. Pesca: Alberto Cordeiro
Dir. Velas: Waldemar Neumayer
Conselho Fiscal: Lênio Arantes / Joaquim Salgado / Victor Julião
Conselho Deliberativo: João Riek / Nolan Riek / Hernani Horácio da Silva

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